A evolução de Antíteses

Por Aléxia Saraiva

Como funciona o processo criativo de quem compõe é sempre uma boa história. Em alguns casos, é algo tão natural que o lado artístico existe desde criança, e só tende a dar as caras e amadurecer com a prática e as ferramentas certas. Com dois álbuns autorais (ouça aqui), inúmeras composições soltas e 19 anos, Bruno Vieira é das pessoas que claramente não vivem sem música. Curitibano e estudante de jornalismo – porque escrever sempre foi uma paixão -, ele foge do estereótipo frio e introspectivo de quem nasceu nessa capital, e cativa com suas composições quem se dispõe a ser seu público.

Decidi ir atrás e descobrir de que forma surgiu essa música que foi escrita, tocada e produzida por uma só pessoa e que ajuda a compor um cenário de música curitibana cada vez mais diversificado.

Indumentária: Como e quando nasceu o projeto Antíteses?

Bruno Vieira: O Antíteses nasceu no final de 2012 quando eu comecei a compor umas coisas em português, assim despretensiosamente mesmo, acabei gostando do resultado e quis compartilhar isso com as pessoas. Até então eu tinha experimentado compor mais em inglês, então isso ainda era um terreno desconhecido pra mim. As primeiras músicas desse projeto se inspiraram em um relacionamento meu da época e funcionaram como meio de escape mesmo, uma forma de externalizar algumas coisas que eu sentia, mas não sabia bem como dizer.

In: Como você define sua música?

BV: Minha música é uma necessidade de conexão. Uma necessidade de diálogo e um retrato do que a é a vida na minha visão, na minha vivência. Tudo isso que eu faço não faz sentido sem um receptor que sente as músicas e se afeta, se transforma junto com elas.

In: Comparando seu primeiro trabalho, Diários de Chuva, com o mais recente, Des Amores, é possível notar que suas composições são mais descontraídas. A que você deve essa mudança? O que você diria que evoluiu de lá pra cá?

BV: As mudanças surgem naturalmente, faz parte, mas eu diria que um fator bem importante para a mudança na sonoridade do Antíteses foi o fato de eu ter comprado equipamentos de verdade nos últimos tempos (para gravação). Esses equipamentos me abriram novas possibilidades na maneira com que eu gravo e construo minhas músicas, eu ganhei uma liberdade maior. Além disso, eu diria que eu amadureci musicalmente. No “Des Amores” eu já tinha aprendido com os erros do meu primeiro trabalho e me foquei em fazer um álbum mais conciso e coerente, melhor instrumentado, mais curto e com letras menos ingênuas, quem sabe. Eu já tinha descoberto minha “voz”, minha linguagem/dinâmica, então eu pude me focar em fazer algo com mais paciência e cuidado.

In: Recentemente você juntou uma formou uma banda para tocar em seus shows, embora Antíteses tenha nascido como projeto solo. O que a participação do grupo agrega às músicas?

BV: Toda a minha vida eu compus e gravei minhas músicas sozinho. Da composição à execução e produção, eu era acostumado a fazer tudo sozinho. Acho que isso foi necessário para eu compreender como eu funciono para compor, e acho que agora eu cheguei num ponto em que eu cresci tudo que eu podia sozinho e se eu quiser me renovar preciso de outras influências diretamente no processo de composição. Aí que entra a piazada da banda. Eu reuni alguns amigos para o show de lançamento do “Des Amores” ano passado, para tocar o álbum na íntegra ao vivo, com todos os instrumentos. A experiência deu tão certo que a gente continuou tocando junto, em várias formações, e agora nós planejamos compor um álbum como banda, com cada um trazendo suas vivências musicais próprias. Essa participação dos piás agrega muito às minhas composições, porque cada um deles vem de uma “escola” diferente, de um estilo diferente. E cada um deles compreende minhas músicas e traz ideias novas sobre elas que fizeram, e ainda fazem, elas crescerem muito na hora de executá-las ao vivo. Eles são incríveis. Tanto que atualmente eu prefiro as músicas ao vivo, com a banda, do que no CD, elas soam mais verdadeiras assim.

In: Quais suas principais influências?

BV: Eu bebo na fonte da MPB de caras como Paulinho Moska e Lenine. Mais recentemente eu diria que duas fortes influências são o Cícero e a banda Baleia. Toda essa galera da nova MPB me influencia bastante, especialmente no sentido de abrir minha cabeça para novas misturas e possibilidades dentro da música brasileira. Além disso, o post-rock e trabalhos recentes de bandas como Katatonia e cantores folk como Damien Rice e Ben Howard acabam sendo outra grande influência para mim.

In: Qual a sua maior ambição? E seu maior medo?

BV: Minha maior ambição é transmitir algo de sincero com a minha música para as pessoas. De conseguir despertar algo nelas, por mais ínfimo que seja, quando elas ouvem meu trabalho. Meu maior medo é de me repetir, de me deixar moldar e mesmo assim não ser compreendido.

In: Cada vez mais a produção musical fica mais fácil dentro de casa, com aplicativos e softwares que possibilitam alta qualidade. Sob esse viés, o que é ser um artista independente?

BV: Ser um artista independente é ser persistente e ser ao mesmo tempo músico, produtor, empresário, promoter, etc. Há uma democratização muito grande do processo de fazer música. Com um investimento relativamente baixo é possível comprar os equipamentos necessários para gravar algo em casa, com uma qualidade decente. Qualquer um hoje pode gravar um CD, parir sua arte no mundo. Isso é lindo, mas ao mesmo tempo difícil de assimilar. São muitas vozes diferentes convivendo e por vezes, por existir tanta coisa nova surgindo a todo o momento, muita coisa boa é perdida no meio da multidão. As pessoas devem ouvir os trabalhos que surgem com carinho e sinceridade. Tendo o cuidado de prestar atenção nas nuances de cada artista é possível encontrar pessoas e músicos incríveis no nosso cenário. Mas bem, acho que é isso. Ser artista independente é tentar fazer de tudo um pouco da maneira mais sincera possível.

In: 3 sugestões de artistas brasileiros?

BV: Tratak, Quarto Negro e Cícero.

Foto: Rafael de Andrade

Foto: Rafael de Andrade

A evolução de Antíteses

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