Entrelinhas sobre o aborto

Um dos mais polêmicos assuntos abordados pelo feminismo costuma gerar uma grande comoção e sensação de revolta, tanto para aqueles que o veem como um absurdo ao sequer ser considerado, quanto para os que lutam pelo inegável valor e respeito pela vida das mulheres. Porém, a causa desses sentimentos quando se fala de aborto vão muito além do simples discordar do lado oposto, e mais além ainda de ser simplesmente contra ou a favor.

Ao pensarmos sobre o aborto estamos diretamente refletindo sobre algo que ignoramos no dia a dia, a fim de seguirmos com a nossa rotina sem enlouquecer: o sentido da vida. Quem somos nós? De onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos depois da morte? As grandes dúvidas da humanidade são a verdadeira origem da inquietação sobre este assunto, mas em vez de lidarmos com a clareza e a humildade que é admitir que não se sabe a resposta dessas perguntas, carregamos a temática de certezas absolutas que geram tanto uma ditadura sobre o corpo de uma mulher (assunto pelo qual temos maior conhecimento, ou pelo menos, alguns têm), quanto um desamparo psicológico para as mulheres que racionalmente entendem que aquele é um direito seu, mas ao mesmo tempo se veem à frente de um conjunto de sentimentos ambíguos.

Ninguém quer fazer um aborto. Nenhuma mulher coloca conscientemente no seu planejamento de vida uma nota que diz “Aqui: engravidar sem desejar e interromper a gestação”. O aborto não é algo simples, não é como retirar a amígdala ou extrair o siso, é uma decisão importante que tem um grande poder transformador na vida da mulher. Após esse ocorrido, muitas mulheres se veem pela primeira vez em uma posição de estar sob controle da própria vida ou de poder dizer um não verdadeiro. Se a tristeza acompanha este momento, ela não precisa ser temida como a sociedade atual impõe, e sim vivida como algo natural da trajetória de qualquer um e que costuma nos fazer evoluir. A sensação de culpa que algumas sentem tem muito a ver com a cultura de onde estão, se são vistas como criminosas ou não, e principalmente se existe um amparo médico e afetivo envolvido.

O aborto sempre existiu e inclusive já teve um papel diferente na sociedade que hoje o condena. A mulher que aborta não é somente a que costumam julgar como descuidada, essa mulher está bem próxima de todos nós, pode ser você, sua amiga, aquela que sempre quis ter filhos, sua irmã e acredite, sua mãe. Sim, outro tabu que fica escancarado nesse assunto: a intocável visão de uma mulher mãe bondosa e altruísta. Uma obrigação muitas vezes longe da realidade do que é conviver com os altos e baixos de ser humano (ps: mulheres são seres humanos também).

Ser a favor da descriminalização do aborto não faz ninguém ser automaticamente obrigado a fazer um ou a abandonar suas crenças. Ser a favor é ter empatia e percepção de que o que você escolhe para a sua vida não deve interferir nas escolhas do outro, mesmo que você ache que está fazendo o melhor para ele. Acreditar que no início da gestação o que existe é um conjunto de células ou acreditar que a vida se inicia na fecundação é permitido, assim como não ter a menor ideia do que acreditar.

Provavelmente nunca saberemos se a nossa existência tem alguma razão, se as nossas dores e experiências fazem parte de algo maior ou se o que sentimos é somente o resultado da interação de neurônios, mas não cabe a uma lei que coloca em risco a vida concreta de milhões de mulheres nos tranquilizar e dar respostas. Cabe sim a ela nos proteger e assegurar dignidade no acesso à saúde. Creio então que o melhor e mais sincero argumento desta inquietante questão do aborto seria o benefício da dúvida que nos pouparia da nebulosa obrigação de decidir entre certo e errado, o tudo ou o nada.

Texto: Virginia de Ferrante
Ilustração: Marcella Briotto
Edição da coluna: Andrea Mayumi

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