Entrevista com o diretor Fernando Meirelles

Por Jean Bris

O diretor Fernando Meirelles esteve em Curitiba, para o encontro do #Conversarte (como você pode conferir neste post) e naquela tarde me encontrei com ele, para uma entrevista exclusiva aqui para o Indumentária. Meirelles falou sobre o cenário do audiovisual nacional, comentou sobre os problemas de distribuição e exibição, as expectativas em torno da Netflix, e ainda nos contou um pouco sobre seu novo cargo na Globo Filmes. A entrevista completa você confere agora:

Já faz alguns anos que tem ocorrido um êxodo de diretores e produtores do cinema para a TV. Dentre os principais fatores para esse fenômeno, está a maior liberdade criativa e maiores possibilidades de exploração de narrativas. Você mesmo é um exemplo disso. Meirelles, você acredita que essas mudanças podem forçar o cinema a se reinventar?
Meirelles: “Não, tem muita gente fazendo cinema ainda. Acho que não é a crise do cinema, é uma possibilidade nova. Agora tem muito mais gente produzindo audiovisual: temos mais canais, formatos, tipos de tela. Não é uma crise, apenas abriu uma possibilidade que não tinha.

Historicamente a distribuição sempre foi o principal gargalo para o cinema brasileiro. O filme é produzido mas não consegue chegar até as salas de cinema. Você acha que os serviços de streaming, como o Netflix, podem ser capazes de suprir essa necessidade?

Meirelles: Atualmente ainda não. Agora acabou o mercado de vídeo; nos primeiros filmes que eu fiz eu pensava: 60% vai ser sala e 40% vai ser home vídeo; depois chegou uma hora que era meio a meio, e esse mercado de vídeo simplesmente acabou diante da pirataria. Então o video on demand teoricamente recompõe isso. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, pois o filme fica disponível, mas o que eles pagam não paga a produção. Já pelos meios tradicionais, muitos filmes não chegam na sala de cinema. Então essa equação não fecha, a não ser com dinheiro do governo.”

Um exemplo disso é o filme “Que horas ela volta?”, que embora tenha tido uma boa repercussão, e tenha sido indicado ao Oscar, aqui em Curitiba chegou apenas em poucas salas…

Meirelles: Os exibidores são todos fechados pelas distribuidoras grandes. Fox, Warner, e os demais prometem um pacote para o exibidor e ele fica nesse circuito restrito das grandes produções. E quando vem algo de fora, fica difícil.

Você não acredita que essa questão da distribuição e exibição também não envolve questões culturais, da relação do brasileiro com o nosso cinema? Digamos que expandíssemos a distribuição e exibição dos filmes brasileiros: teríamos os filmes nas salas de cinema mas poderíamos correr o risco de ter salas vazias?

Meirelles: Eu acredito que se houvesse quantidade de salas suficientes e dinheiro disponível para divulgação a gente poderia estar num share de marketing melhor do que estamos atualmente. O dinheiro investido para promover esses blockbusters costuma ser o orçamento de cerca de 5 filmes brasileiros. Os caras chegam no país com o filme e gastam 6 ou 7 milhões para o lançamento e um filme brasileiro médio tem 300 mil reais – isso quando tem. Essa é a equação. Porque são aqueles filmes eventos, cheios de efeitos especiais, e aí a gente não faz igual. Às vezes tem uns draminhas americanos que vão melhores que os filmes brasileiros, e isso é porque eles têm dinheiro, né? Eu acho que teria espaço e interesse pelos filmes brasileiros. Que horas ela volta? Poderia ser um filme para fazer 2 milhões de espectadores, mas daí o cara põe só em poucas salas aqui em Curitiba, por exemplo… Complica.

Recentemente a NETFLIX anunciou a produção da série original “3%”, um sci-fi brasileiro que havia tido 3 episódios pilotos há alguns anos e fez um imenso sucesso na internet, mas não foi aceito por nenhum canal para ser produzido. A Netflix, com iniciativas como essa, é o futuro de um novo modelo de produção audiovisual no Brasil?

Meirelles: A Netflix chegou ano passado, fizeram reunião lá na O2 e eles estão querendo começar a produzir. O problema é que, por enquanto, eles pagam muito pouco. Eles querem fazer essas séries originais também, como fazem fora do Brasil, mas o valor que eles pagam por episódio ainda não dá pra fazer uma coisa com qualidade – não com a qualidade que eles querem. Eles querem qualidade HBO, pagando o que a GNT paga. Mas eles estão fazendo reunião…

Você acha que para os produtores independentes, ao menos, seria um novo horizonte que surge?

Meirelles: Seria apenas mais um. Todos os canais estão produzindo por conta da lei da TV paga, e a Netflix na verdade não chegou sendo um diferencial. Porque estão oferecendo o que os canais que oferecem pouco oferecem, então por enquanto não é uma maravilha, é só mais um player. Vamos ver se eles vão ficar valentes e bancar alguma coisa… Só para você ter uma ideia, aqui no Brasil, um episódio de série de 50 minutos na Globo custa em torno de R$ 1.4 milhão, na HBO por volta de R$ 900 mil, e a GNT, Fox e esses canais com séries de meia hora pagam por volta de R$ 320/350 mil. E a Netflix entrou nesse último patamar aí. Isso para série de ficção! Quando falamos de documentário aí os valores vão pra R$ 220 mil, e tem gente pagando 70 mil por episódio, e aí vai caindo. Só pra te dar um panorama. Netflix entrou no mercado e não está fazendo nada de espetacular por enquanto, mas estão interessados em produzir. Vamos ver.

Recentemente você se tornou consultor da Globo Filmes…

Meirelles: É, arrumei um emprego! (risos)

Como tem sido? Lendo muito roteiro?

Meirelles: Lendo muito roteiro, mas está sendo bacana. Mais trabalho do que eu pensava. Você recebe 5 ou 6 roteiros por mês, tem que ler pelo menos uns 4. Alguns que eles leem vem com um resumo e uma avaliação, então se é uma história que não te pega, eu já fico por aí. Você lê o roteiro e você pode virar um supervisor daquele filme. Então já estou sendo supervisor de alguns projetos em andamento. Somo 4 supervisores: Eu, o Cacá Diegues, o Guel Arraes e o Alvarenga. Antes era o Daniel Filho, mas ele saiu e eu entrei no lugar dele. Basicamente a gente acompanha o desenvolvimento do roteiro, desde o início, às vezes dá palpite em elenco. A gente entra de vez em quando, faz umas 4 ou 5 reuniões no processo inteiro. Depois na montagem faz um ou dois encontros também. Antes a Globo Filmes fazia o seguinte: Você levava o seu filme pronto e eles basicamente colocavam a chancela deles e ficavam com 5% do filme e te davam anúncio na Globo. Agora que entrou o Edison Pimental, numa nova gestão, ele quer realmente criar uma carteira de filmes interessantes, então eles estão selecionando alguns perfis de filmes diferentes e eles querem ser parceiros, entrar como co-produtores e ter uma voz. Só entram no filme se for desde o começo, ainda no roteiro; não querem mandar, não querem ter a última palavra, mas querem ter uma voz. E essa voz é através de nós, os supervisores.

Muita coisa é produzida no Brasil através das leis de incentivo. Você não acha que em certo ponto nossa indústria fica um pouco engessada, por conta da dependência do Estado e pela falta de coragem da iniciativa privada em investir diretamente em produções além dos mecanismos de renúncia fiscal?

Meirelles: Muita coisa não! Tudo! Essa questão é delicada, mas acho que atualmente tem essa tendência… O produtor pode fazer o que ele quiser, pois não é o dinheiro dele, é dinheiro do governo… Mas essa situação que até então existe, não satisfaz mais. O que está acontecendo é que o Brasil produz mais de 100 filmes por ano e 60 deles não chegam às salas de cinema. Então se o produtor não tiver um pouco de bom senso e pensar “Eu quero entrar no mercado, deixa eu rever o meu corte”. Pensar um pouco no mercado e não ficar só naquela viagem de “Essa é minha poética, essa é a minha subjetividade”, porque desse jeito ele se ferra no fim. Ele vai fazer o filme dele, e esse filme não vai nem chegar na sala. Ele faz o filme pra ele e ninguém vê. Há uns 10 anos, como tinha obrigatoriedade de exibição, quase tudo que era produzido era exibido no cinemas, de uma maneira ou de outra; já atualmente você pode fazer seu filme e se não tiver algo de interessante ao público ele não chega, morre na prateleira. O que é um absurdo, pois o Estado está gastando dinheiro com filmes que não chegam até a população!

 

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Fotos: Lucas costa e Valterci Santos

Entrevista com o diretor Fernando Meirelles

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