Meu corpo é lindo!

Barbara Oeiras, 35, DJ

 

Ando refletindo muito sobre isso e resolvi escrever. É textão:
Aos 24 anos, eu fiz redução de mama. Poderia dizer que foi por saúde, mas foi por estética. Anestesia geral, alergias no pós operatório, pontos abertos, cicatrizes, mamilos com menos sensibilidade. Caso tenha filhos, terei problemas na amamentação.

Engordei, cheguei a 121Kg. Aos 31, me mutilei. Cortei e grampeei meu estômago. Poderia dizer que foi por saúde, mas foi por estética. Anestesia geral, dor, alteração na absorção de vitaminas para o resto da vida, queda de cabelo, flacidez, luta constante contra anemia, passo mal ao comer coisas que eu amava, cicatrizes. Passei anos transando no escuro e evitando posições que poderiam deixar meu corpo “estranho”.

Eu aceitei o risco de duas cirurgias por achar que nada era pior do que ser chamada de gorda na rua por desconhecidos. Nada era pior que a dor e a vergonha que passei na infância e na adolescência. Já fui perseguida na internet, nos tempos de Orkut, humilhada por terríveis semanas, cheguei a receber por e-mail a foto de uma mulher negra, gorda, morta com um tiro no peito e meu rosto no lugar do dela. Me apontavam o dedo, só ficavam comigo escondido. Um morador de rua, que vivia perto de um dos apartamentos onde morei, gritava “GORDA” quando me via, e eu mudava o caminho todos os dias para não cruzar com ele. Me xingavam do alto de construções, me jogaram uma latinha de refrigerante enquanto eu esperava um ônibus para voltar do colégio… enfim, o mundo é muito cruel com as pessoas gordas, especialmente com as mulheres. E eu? Mulher negra. Olha, não foi fácil…

Entrei em depressão diversas vezes e em uma delas, quando eu achava natural me imaginar caindo pela janela do 17º andar do apartamento que morei em São Paulo, decidi fazer a cirurgia bariátrica. Como fica o corpo de uma pessoa que emagrece 56Kg? Flácido e com pelancas. O plano cobre a plástica reparadora do abdome. Eu tenho a carta de liberação há uns dois anos e depois de pensar muito, eu decidi: NÃO VOU OPERAR!! Não vou me submeter a mais uma cirurgia por estética. Mais uma anestesia geral, mais dor, mais sofrimento… só porque o mundo acha que eu devo ser magra com a barriga chapada. Eu não gastaria praticamente nada para ter a barriga que as revistas chamam de “dos sonhos” e eu não quero, não vou.

Resolvi me aceitar. Meu corpo é lindo, eu moro nele. Meu parceiro de aventuras… já o fiz sofrer tanta violência física por conta das violências psicológicas… agora não vou mais. Eu amo, ou pelo menos procuro amar, cada centímetro do meu corpo. Cada celulite, cada estria, cada dobrinha… Devo confessar que é um exercício diário. Já estive 10Kg mais magra do que estou hoje, vejo algumas fotos e fico triste, mas logo penso que não tenho esse direito. Não quero viver mais nenhum padrão, só quero viver o amor próprio.

Ei moça, você é linda!! Seja qual for o formato do seu corpo. O que você tem dentro do coração é o que te faz especial… Trate de amar suas curvas, marcas e assimetrias… você é perfeita. Eu sou perfeita!!! Nós somos!!! <3

 

Texto: Barbara Oeiras

Foto: Naya Mendes

Meu corpo é lindo!

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Sobre o autor
- Elas por Elas é um coletivo feminista de Curitiba. Somos um espaço de debate e apoio às mulheres. Nossos valores são sororidade, empoderamento, respeito e empatia.

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