Moda e Identidade: O Vestir Como Ato de Resist­­­­­ência

Identidade:” É o conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la.”

Passamos praticamente a vida inteira em busca de nossa própria identidade. Cultivamos um anseio de nos diferenciarmos. Sermos reconhecidos como seres únicos, além do que a ciência já nos diz sobre o DNA.

A partir da nossa relação com o mundo e entre nossos círculos sociais, vamos, aos poucos, desenvolvendo e definindo quem somos e quem queremos ser.

A verdade é que para nós, pessoas negras, esse processo é bem diferente. E digamos um tanto quanto doloroso. Desde pequenos, somos induzidos a não nos reconhecermos como negros. Todas as referências que temos, seja em desenhos animados, séries, filmes e até mesmo em brinquedos, possuem padrões eurocêntricos.

O Racismo Velado

Ao longo de nossa adolescência – e aqui me baseio, além dos estudos, em experiências pessoais -, temos que lidar com o fato de sermos “negativamente” diferentes. Temos de lidar com o racismo velado. Através dos inúmeros apelidos “inofensivos” ou estar nas listinhas de pessoas consideradas “mais feias” da sala… Entre outras façanhas que só os adolescentes possuem o dom de realizar.

Num certo momento, olhamos no espelho e paramos de negar: temos a iluminada revelação de que realmente temos ”algo” diferente dos demais. Diferente do que é considerado bonito. Aprendemos a odiar o nosso corpo, nosso cabelo. Aprendemos a rejeitar todos os mínimos detalhes que nos fazem ser quem somos.

E por consequência da autonegação, já não temos mais identidade.

Porém, a eventual perda de identidade não é novidade no Brasil. Esse fenômeno já está enraizado em nosso país desde o processo de colonização. Quando os negros africanos sequestrados e feitos de escravos, além de serem brutalmente arrancados de seus países de origem e convívio social, reduzidos à pura mercadoria; tinham suas vestes rasgadas e cabelos raspados. Uma forma de recado explícito dos senhores de engenho: os negros já não pertenciam a si mesmos e nem às suas culturas.

A indumentária sempre serviu de suporte para a construção de identidade de um povo ou indivíduo. Caracterizando e individualizando as diferentes culturas. E esse é um dos motivos pelos quais a moda é uma ferramenta para o empoderamento da mulher negra através da estética.

Moda e Liberdade

De acordo com o sociólogo Gilles Lipovetsky a moda é um dos espaços sociais onde os indivíduos conseguem exercer sua liberdade e aperfeiçoar, criticamente, sua maneira de enxergar o mundo.

Apesar de ainda termos pouca representatividade, seja de modelos/it girls/digital influencers ou estilistas negras. Apesar do mínimo espaço que nos é cedido em posições de prestígio quando temos o mesmo excelente currículo do que uma pessoa branca. A despeito de ainda precisarmos especificar a palavra “Negro” ou “Negra” no final de cada pesquisa pra que possamos encontrar imagens que nos representem. Ainda assim, estamos aprendendo, pouco a pouco, a descolonizar nossos corpos e nossas mentes. Estamos aprendendo a celebrar a nossa aparência. Estamos retomando a nossa identidade.

Sabemos que a moda ainda é um espaço majoritariamente branco e elitizado. Eis então, a importância de se construir a identidade negra a partir e através do mundo da moda, pois este possibilita um espaço de fala. Para nós, negros, a roupa por si só não se comunica. Ela precisa dos nossos corpos, com nossas vivências, ancestralidade e essência para expressar nossa resistência.

Desse modo, o processo de se vestir vai muito além. É o veículo pelo qual decidimos mostrar ao mundo que nossa cultura não foi, nem será apagada. Que nossa existência, enquanto pretos e pretas, não será mais anulada. Que o nosso povo importa!

Assim como nossa militante e ativista do feminismo negro, Bell Hooks, disse: ”Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração”.

A Autora

Hadassa, 23 primaveras, africana, designer de moda , sonhadora por natureza, mãe de plantas e autora do blog Se Essa Preta Falasse. Acredito que a moda é cultural e política.

Moda e Identidade: O Vestir Como Ato de Resist­­­­­ência

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