Olhar de Cinema: “Rabo de peixe”, o retrato dos oceanos da alma.

Por Jean Bris

Começou o 4º Olhar de Cinema, o festival internacional de Curitiba, que ao longo de suas edições se consolidou como um dos mais importantes do Brasil.

Para sua exibição de abertura, foi escolhido o documentário português “Rabo de Peixe”, dirigido por Joaquim Pinto e Nuno Leonel, que foi rodado entre 1999 e 2001 e recebeu recentemente um novo corte, sendo agora exibido pela primeira vez na América Latina.

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O documentário se passa no arquipélago dos Açores, na Ilha de São Miguel, onde está localizada Rabo de Peixe, a maior comunidade de pesca artesanal de Portugal. Lá, acompanhamos a trajetória de Pedro, um humilde pescador que foi seguido pelas câmeras de Joaquim e Nuno durante todo um ano, enquanto realizava suas árduas atividades de pesca junto de outros homens da região.

A localidade de Rabo de Peixe parece resistir aos costumes do homem moderno. E isso tem motivos claros: considerada também a mais pobre comunidade lusitana, aquele povo, deixado à margem pelo continente, decidiu criar seu próprio universo, com suas regras e costumes, que contrastam claramente com o resto do mundo.

Ainda assim incontáveis características ocidentais contemporâneas estão ali, mesmo que não contenham para eles o peso e a importância que para nós.

Rabo de Peixe – director’s cut, trailer from Joaquim Pinto Nuno Leonel on Vimeo.

O universo da pesca artesanal serve como um background para tratar da questão humana. Não é um filme sobre pesca. É um filme sobre pessoas, seus sentimentos, agonias, anseios… Sobre o medo da morte e a solitude da existência humana, representada por planos extremamente belos da imensidão das praias e da vastidão dos mares.

E por isso é muito fácil se identificar com os personagens ali retratados. Todos personagens reais, que mesmo vivendo em um lugar distante (não só no sentido de distância física, como também filosófica e cultural) possuem questionamentos e objetivos que podem ser facilmente identificados em qualquer outro lugar do mundo.

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Porém, embora se aproximem de nós dessa maneira, se distanciam de outra. São homens livres, e toda a população daquele lugar vive em um outro ritmo, inimaginável para muitos de nós.

São despreocupados com a passagem do tempo e, mesmo com a rotina da pesca, jamais podemos assumir que aqueles personagens estão apenas trabalhando. O trabalho é árduo mas é feito com paixão, com a alma e também com consciência.

Em contraste com a devastadora pesca predatória realizada por grandes navios pesqueiros ao redor do mundo, aqui a humilde pesca artesanal se preocupa muito com o equilíbrio ambiental e com o impacto que podem causar, caso pesquem além do que a natureza é capaz de suprir, por exemplo.

Um respeito mútuo, que é estendido a quase todo o sistema em que eles vivem. Companheirismo, lealdade e a partilha igual de alimentos demonstram um altruísmo inalcançável para nossos padrões, por vezes exaustivamente individualistas.

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A cena inicial do longa, com uma câmera subjetiva submersa e uma narração em voice over, emula o afogamento de uma pessoa, e nos provoca logo de cara estranhamento, incômodo e agonia. Aqui já podemos perceber a real intenção do filme, onde mesmo diante da constante amostra do poder das águas, o elemento humano é o protagonista.

Rabo de Peixe é a representação de uma sociedade utópica, que o próprio filme demonstra que estava fadada a se extinguir – principalmente por questões financeiras.

Ao subir dos créditos, a constatação imediata é que Rabo de Peixe na verdade é um filme sobre oceanos. Oceanos da alma, onde vemos refletidos a essência do ser humano, seja numa sala de cinema em Curitiba ou numa ilha longínqua nos Açores.

Confira a programação dos filmes que serão exibidos. Qual deles você está ansioso para ver?

 

Olhar de Cinema: “Rabo de peixe”, o retrato dos oceanos da alma.

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