Parei de usar sutiã e moldei a mim mesma

Foto destacada do ensaio boudoir feito pela Vanessa Leal

Lembro de quando criança desejar o dia em que finalmente ganharia o primeiro sutiã. Na minha cabeça, era uma como uma assinatura de clube secreto que apenas algumas sortudas poderiam participar.

Aos 9 ou 10 anos, chegou o grande momento, ganhei de uma tia uma peça branca e delicada. Honestamente, não havia muito o que segurar ali – ainda não há – mas a alegria de finalmente ter minha passagem garantida para o clubinho era imensa.

Foi de Mary Jacobs, lá pelos anos de 1910, a invenção dessa peça íntima. A socialite não conseguia encaixar seu espartilho de barbatana no vestido que iria a um baile, então com a ajuda de sua empregada uniu lenços a uma fita cor de rosa e cordão.

A criação foi patenteada pela Warner Bros e até o fim da Primeira Guerra Mundial já apertava o busto feminino América a fora. Sua função mudou – e muito – no decorrer das décadas, nos anos 1920, compunham o estilo “garçonne” achatando o busto, para alcançar um aspecto andrógino. Nos anos seguintes as curvas voltam a ganhar fama, e assim os bojos e as estruturas de metal começam a fazer parte da composição. Durante os anos 1950, o nylon permite peças mais sedutoras que assim conquistam as estrelas de Hollywood.

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Entende onde quero chegar? O sutiã é uma reminiscência dos espartilhos, e assim como eles, tem o dever de moldar o corpo. Nossas cinturas estão livres, mas pobres dos nossos seios! De arames, bojos, alças de todas as larguras se fazem esses redutos.

Passado o frescor da novidade com meu primeiro sutiã comecei a notar que nem tudo era feito de renda. Chegada uma hora do dia meus ombros estavam cansados das alças, que insistiam em aparecer quando não deveriam – puxa daqui, cai dali. Notei que precisava coordenar sutiã à roupa, ou apareceriam bolinhas e florzinhas pela camiseta branca. Marcavam meus vestidos, marcavam minha pele com suas costuras, e sendo sincera, me enchiam o saco.

Ouvi falar de uma campanha chamada Free The Nipple tempos atrás, a ideia era a desmitificar os mamilos femininos, sempre tão polêmicos.

RP @weglosa #willowsmith

Uma foto publicada por Gweelos (@willowsmithfan) em

Willow Smith, a filha descolada do Will Smith, questionando: “Quando o corpo feminino começou a ser algo para se esconder?”

A campanha pedia por top less como liberdade. Gostei da ideia. Mas não sejamos radicais, pequenos passos primeiro. Resolvi experimentar me libertar do que estava prendendo: o sutiã. Foi um dia sem usar. Daí outro. E outro. Uma semana. Agora são dois anos e que alívio!

Eu tenho alguns, bem enfeitados, no fundo da gaveta. Estão reservados às blusas transparentes que merecem um adorno ou pra ocasiões quando uma peça a mais só aumenta o mistério – afinal, temos várias primeiras noites. Mas entendi que não é uma necessidade diária. Eu não preciso me moldar a coisa nenhuma, oras! Não preciso puxar pra cima, apontar pra frente, fazer volume.

Deixei o sutiã de lado e comecei a moldar minha visão sobre o meu corpo e sobre o mundo. O que quero dizer é: sutiãs podem ser divertidos, coloridos, rendados, sensuais – ainda mais quando é outra pessoa o desabotoando para você – no entanto, não precisam apertar você o tempo todo. Deixa para as primeiras noites!

Mas Hellen, não vai cair tudo?

Vai não, menina. Um estudo conduzido durante 15 anos pelo francês Jean-Denis Rouillon revela que usar sutiã não previne e pode ainda aumentar a queda dos seios. Entre as mulheres acompanhadas o mamilo volta a subir a uma média de sete milímetros por ano quando não se usa sutiã, essas registraram também peitos mais firmes. Não há nenhuma evidência de que a peça íntima previne problemas na coluna, os pesquisadores acreditam que os sutiãs atrapalham a formação de tecido mamário. Nosso organismo é inteligente e sabe se sustentar sozinho. Confie no seu corpo.

Parei de usar sutiã e moldei a mim mesma

Sobre o autor
- O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.

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