Porque eu parei de usar jeans

Sou esquisita. Alguns preferem excêntrica – é mais sonoro e dá um ar austero – mas admito que sou esquisita. Quando criança minha mãe, como a da grande maioria, puxava minhas calças até quase o tórax. “Para segurar melhor”, ela dizia. Agradeço o costume já que isso me tornou uma adepta das cinturas altas e influencia também minhas escolhas de calças.

Na hora comprar a primeira sugestão é sempre: “Ah, tenho essa calça jeans que o cós é quase alto”. “Eu não uso jeans”, respondo. Surpresa. Choque. Olhar desolado. Eu sei, a calça mais democrática que existe na história da moda é a calça jeans. Se você não estiver usando uma agora, aposto que há pelo menos duas guardadas na sua casa.

Levi Strauss, alfaiate alemão, foi o responsável por criar a peça que também deu origem a um estilo de vida. Inicialmente sua intenção era suprir a necessidade de mineradores por um tecido resistente. Com a popularização do estilo western nos anos 1930, James Dean e Marlon Brando associaram a masculinidade e uma rebeldia jovem – do tipo mais saudável – a esses pares de pernas.

Tanto que 138 anos depois, o jeans ainda está no imaginário e guarda roupa geral. Seus maiores produtores atualmente são China, Brasil, Turquia e Índia. Somando metros costuram 1,5 bilhões de calças por ano. Ao tornear as pernas de um socialite ou de um caminhoneiro, o denim, que é constituído majoritariamente por algodão, deixa em trapos o meio ambiente.

A matéria prima consome 25% dos agrotóxicos do mundo. Aquele famoso tom azulado era antes formulado pelo índigo, um corante natural. Mas foi substituído pelo anil sintético e outros corantes de petróleo.

O aspecto desgastado, queridinho dos cantores sertanejos, é feito por substâncias químicas como amônia e soda cáustica, perigosos para a saúde e também para nossos espaços verdes. Ainda tem o alto gasto de água: para produzir uma única calça é usada a quantidade de litros que uma pessoa consome durante um ano. Além da emissão de CO2.

Essa calça jeans é destruidora mesmo, ein?!

Mas calma, 41% do processo poluente é nossa culpa. Sim, pois é… Eu explico. Cada vez que sua calça vai pro tanque de lavar, escorrem pelo ralo cerca de 20 litros de água. Quatro vezes a quantidade de água que alguém em um país em desenvolvimento poderia usar em um dia inteiro para beber, limpar e comer.

Na hora de passar são 400,2 megajoules de energia elétrica, suficiente para assistir a uma televisão de plasma por 318 horas direto. Lembrando também das compras por impulso, ainda mais em época de descontos, que nos levam ao descarte rápido de algo de deveria ser usado por anos.

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Os dados das tabelas são de uma pesquisa realizada pela Levi’s no ano de 2009. Se descobriu que: são emitidos 32,5 kg de CO2, o equivalente ao carbono sequestrado por seis árvores por ano. Que se gasta energia suficiente para assistir a uma televisão de plasma por 318 horas. E que a água consumida é suficiente para 53 banhos de sete minutos cada (3.480,6 litros). Imagem: Revista Planeta.

Tudo tem solução

Como tudo na vida, antes de casar sara. Para isso, basta um pouco de consciência e autocontrole. Não é preciso abolir a calça jeans do vestuário. Mas lavá-la menos vezes, reutilizar, ir a brechós… Doar ou trocar. Secar ao natural e comprar de empresas que o produzam de forma sustentável – como a própria Levis que constantemente diminui o uso de água na produção e busca por um algodão orgânico. Essas são medidas simples que contribuem para harmonia da moda com o planeta.

Quanto a mim, permaneço esquisita usando cintura alta de tecidos coloridos, só não de jeans.

Porque eu parei de usar jeans

Sobre o autor
- O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.

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