Primeiro Sofar Sounds do ano homenageia vozes femininas no atelier Reptilia

Vem aqui. Puxa essa almofada e senta do meu lado. É assim, juntinho mesmo. Tem problema, não. Todo mundo quietinho que o som já vai começar. A gente ainda não sabe qual som, mas sabe que vai começar. Opa, esbarrei meu cotovelo no seu braço. Desculpa. Sorriso. Tem problema, não. Senta mais perto que é pra caber mais gente. Tem vinho barato ali, se você quiser. Tem conversa boa no intervalo, se você for de conversar. Tem som. E é dos bons!

É num aconchego de quem chega em casa que acontece o Sofar Sounds. Casa essa que muda de endereço a cada edição, e pela primeira vez escolheu um atelier de moda como residência aqui no Brasil. A ideia é simples e cheia de mistério: produtores de 328 cidades espalhadas pelo mundo encontram iniciativas locais de música, encontram um local diferente para fazer isso acontecer e depois encontram um público interessado em consumir música ao vivo.

Cheia de risos com a estilista Helo Strobel e a jornalista Carmela Scarpi, do Even More

São bandas independentes, músicos experimentais, melodias que merecem bons ouvidos… Com tudo isso organizado, produzem um show e liberam uma inscrição. Depois de colocar seus dados, caso seja chamado pra esse círculo, você recebe o endereço secreto. No dia, você aproveita um show – que não tinha ideia de qual seria. A proposta é trazer a magia da música ao vivo para nossa realidade pasteurizada. Entrar em contato com o artista no nível do olho no olho. Se desligar do mundo e apreciar a experiência.

Sofar Sounds acontece pela primeira vez dentro de um atelier de moda no Brasil

Aqui em Curitiba, Aline Valente é uma das coordenadoras da iniciativa. Para o primeiro Sofar Sounds do ano um tema especial: elas! Nós, mulheres. A voz feminina ganhou o palco da Reptilia, o primeiro atelier de moda a receber os microfones do Sofar no Brasil. “A moda e a música são formas de expressão. Quando você canta ou se veste está passando mensagens, está comunicando alguma coisa”, me diz Aline no jardim.

A Reptilia se coloca como um espaço aberto para experiências e cultura. Ninguém melhor que essa equipe, só formada por mulheres, para receber shows em homenagem ao feminino. “Eu acredito muito nessa multidisciplinaridade da moda, é muito mais sobre o que você faz enquanto está vestido do que a roupa em si”, fala Heloísa Strobel, a estilista. Não a toa, a Reptilia já vestiu Iria Braga e Janine Mathias para suas apresentações.

Parar e ouvir

Atravessando o Jardim, nos organizamos entre as franjas de Helô, detalhe registrado de suas criações, para apreciar três seleções que se revelam aos poucos. Cida Airam, cheia de cores, quebra a postura fria curitibana com seu sotaque arrastado de nordestina. Num calor que exala de sua música e personalidade carismática, canta sobre amores em cirandas e forrós. Impossível não se encantar pelos seus versos combinados e energia que emana enquanto ela acompanha em passos divertidos seus arranjos.

Diminuindo o ritmo, Rosie Mankato nos convida pra um mundo intimista. Vestindo uma blusa amarela da Reptilia, quase sussurra suas composições em inglês, numa voz que acalma. Ela nos faz rir com seus trejeitos durante o repertório. É curioso observar os ouvidos atentos, que não ousam se mover das almofadas, para não perder nenhuma nota. Rosie ensina um coro, todos cantam juntos. Mesmo os mais reservados acabam se entregando a atmosfera.  Raissa Fayet e Amanda Pacífico continuaram a noite em dueto, seguidas por Jenni Mosello, que encerrou a programação.

Numa simbiose delicada, moda e música se encontraram nesse domingo. O que ficava fácil perceber pelo público que ali escolheu passar o fim de semana: todos de sorriso fácil e estilo forte. Cabelos de todas as cores, roupas de texturas e combinações que permitem sentar no chão com conforto, pra se entregar ao som.

Os registros são da talentosa Eve Ramos.

Primeiro Sofar Sounds do ano homenageia vozes femininas no atelier Reptilia

Sobre o autor
- O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.

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