Sarau P.U.T.A: amor, empoderamento e um dia pra lembrar

Por Gabriela Titon
Diante de ouvidos atentos e corpos transgressores, ela disse, tentando justificar a falta de sintonia com o fio do microfone: “eu ainda não me acostumei a ter coisas me prendendo”. A frase veio de uma voz que disparava versos imponentes durante o mic aberto do Sarau P.U.T.A. Evento que aconteceu no La Bamba. Poucos segundos depois, uma resposta inesperada veio certeira da plateia: “não se acostume nunca”.

Em 2017, continuamos repetindo algo que a escritora Marina Colasanti já bradava há duas décadas: a gente se acostuma, mas não devia. A gente se acostuma com as amarras, com a violência, com os padrões, com os julgamentos, com as imposições… A gente se acostuma com tanto soco no estômago. Tanto gosto amargo na boca que até se esquece de saborear o doce da vida. A gente se acostuma com tanta falta de sensibilidade. Tanto desamparo. Tanta ausência de tudo que até se esquece de quanto o afeto é poderoso.

O  Sarau P.U.T.A

E, já que a gente se esquece, domingo foi um dia pra lembrar. O sarau foi proposto pelas meninas da banda Mulamba. Tendo o apoio da Bambaê Produções, como um espaço pra gritar o que permanece preso nas entranhas e pra impulsionar algo tão batalhado: o protagonismo feminino. Mais do que isso, foi um momento de liberdade. Sentimento transformador nesses tempos de cólera, em que resistir e reexistir é preciso.

A programação

Pra começar o dia, a performance “Maria Bolacha”, da Raquel Bombieri, foi o pontapé que nos instigou a pensar sobre o lugar da mulher no mundo. Mais tarde, as convidadas Leonarda Glück, Caroline Lemes e Ísis Odara soltaram suas poéticas em conjunto com a Mulamba.

O resultado não poderia ser diferente: presenciamos palavras afiadas que rasgaram mentes pulsantes e acalentaram corações de uma Curitiba. Que, por algumas horas, deixou de ser cinza. Tudo permeado por um setlist inspirador da DJ Carmen Agulham. Comidinhas preparadas com carinho, bazar com marcas cheias de simbolismo, live painting e tatuagem.

Enquanto observava as mais de 200 pessoas presentes, imaginava que uma sensação unânime poderia se traduzir em um trecho composto pela cantora Violeta Parra: “gracias a la vida que me ha dado tanto”.

Domingo foi, de fato, um desses dias em que damos graças à vida por estar exatamente naquele lugar e naquele momento. Um dia raro, construído com muitas mãos e dois ingredientes singulares: amor + empoderamento. Pra sentir um pouquinho do que rolou por lá (e querer estar presente na próxima edição), selecionei esse texto incrível da Leonarda Glück:

Carta Grata Ao Indissolúvel Poder Universal Da Emancipação Moral E Financeira De Tudo Sobre Tudo Aquilo Que Julgo Sem Poder Julgar


Não obedeço mais.
Eu não sou mulher para te fazer feliz.
Eu não sou homem para te fazer feliz.
Eu não sou máquina para te fazer feliz.
Eu não fico, eu não saio daqui para te fazer feliz.
Eu acordo e o sangue já existia, o dia já ia alto, o nome, a economia internacional, a praça e os flagelados.
A alma fraca e pobre já existia, o sol, a família. O poder já existia, fundado, fundante, fundável, afundado.
Eu não sou mendiga para te fazer feliz.
Eu não sou menina para te fazer feliz.
Eu não sou mentira para te fazer feliz.
Eu não te agrido para te fazer feliz.
Eu não tenho uma mãe burra para te fazer feliz.
O meu sapato apertado, o couro engomado: eu não sou vítima para te fazer feliz. Nada em mim é para te fazer feliz.
O meu amém não é teu, é ateu, é até, é além, é por sobre o vôo inconstante dos mitos renegados, adorados e dilacerados pelo amor de um povo sórdido.
A rua não é tua, não é minha, não é de Deus, não me venha com lorotas. Eu me vesti assim hoje para viver. Somente para viver.
Eu não te roubo para te fazer feliz.
Eu não te amo para te fazer feliz.
Eu não respeito a tua opressão.
Eu não sou assim para te fazer feliz.
Eu não engulo teu sexo para te fazer feliz.
Eu não engulo a tua porra para te fazer feliz.
Eu não assino um nome civil para te fazer feliz.
Eu não me calo, eu não falo para te fazer feliz.
Eu não rio para te fazer feliz.
Eu não caso, descaso, tenho filhos, sigo rumos, persigo para te fazer feliz.
Eu não sossego o facho para te fazer feliz.

Fotos: Duda Dalzoto

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Gabriela Titon

Jornalista e fundadora da Ninna Conteúdo. Acredita no poder transformador da arte em suas diferentes manifestações e incentiva o protagonismo feminino. Acompanhou os bastidores do sarau enquanto assessora de imprensa da Mulamba e, como boa sagitariana, aposta que o mundo só estará a salvo quando houver amor da cabeça aos pés

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Sarau P.U.T.A: amor, empoderamento e um dia pra lembrar

Sobre o autor
- Elas por Elas é um coletivo feminista de Curitiba. Somos um espaço de debate e apoio às mulheres. Nossos valores são sororidade, empoderamento, respeito e empatia.

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