Ser Mulher, uma busca por identidade

Dizem que você está virando mocinha quando aprende a usar saia e sentar de pernas cruzadas. Ou quando decide sua própria roupa sem sua mãe coordenar o seu armário. Falam que você é uma moça quando menstrua pela primeira vez e aprende os desprazeres de um absorvente interno. Ou talvez, na sua primeira transa. 

Ouço sobre mulheres que se casam ou se tornam mães. Mulheres que ganham prêmios. Mulheres adultas. Mulher Maravilha.

E aqui a palavra parece se encaixar perfeitamente: mulher.

Nos meus vinte e tantos anos ainda não sinto mulher. Por vezes, penso duas vezes antes de colocar uma saia rodada com meia colorida, me perguntando se isso não me traz de volta à infância. Tenho olhos grandes e uma fisionomia delicada, o que me dá cara de menina. Menina, não mulher. Quando perguntam minha idade e respondo com um pouco de receio, sempre recebo um “mas que novinha”.

Novinha. Não mulher.

Não se nasce mulher

Todo mundo tá cansado de compartilhar algum meme da Simone de Beauvoir falando sobre como não se nasce mulher, torna-se. A declaração que já virou ditado popular, abre parâmetro para identidade de gênero – inclusive de pessoas trans – e também para todos os engendramentos que uma identidade feminina carrega.

Muitos pesquisadores distinguem a identidade através da biologia, com fatores étnicos, raciais e por aí vai. Nossa querida Simone, rompe a biologia feminina como um fator essencial para formação das nossas identidades. Ser mãe, cumprindo com um destino biológico, não necessariamente é o que torna alguém mulher. Deixar de ser mãe, também não impede que alguém o seja. Isso ajuda – e muito. Mas ainda tem uma porção de coisas pra resolver. 

 

Ser Mulher, uma busca por identidade

Foto: Dan Guinski

 

Identidade é cultura, história, imagem e um tanto de coisas

Identidades também são formadas por signos. Símbolos diversos. Os seios, o útero, as saias, a cor rosa, os cabelos longos, a boca vermelha… Nos apegamos a tais simbologias na busca constante de representar quem somos.

Quando deixei meu cabelo curto, curtíssimo, acima das orelhas, por vezes não me reconhecia. Acostumada às camadas e camadas de fios que eu jogava para todos os lados, ter meu rosto assim, tão desnudo era um novo reflexo no espelho. Já não tão delicado quanto antes. Ainda haviam as perguntas constantes sobre minha orientação sexual, já que agora eu não correspondia a encenação típica de uma mulher hétero. 

Identidades também são históricas. Por séculos, os registros do que seria uma mulher eram reservados aos espaços domésticos, às cartas e diários sistematicamente escondidos, como também ficavam aquelas mulheres que os escreviam. As representações públicas eram feitas de mãos e vozes masculinas, que também carregavam suas perspectivas e compreensões irreais. 

Ler, assistir ou escutar muito pouco ou quase nada sobre histórias de outras mulheres nos isola. Faltam referenciais que partilhem as inseguranças e dificuldades em nos descobrir quem somos.

Aqui se faz importante citar os esforços de criadoras como Lena Duhan, Amy Shummer e Tina Fey. Mesmo que suas narrativas ainda sejam excludentes a muitas mulheres que não compartilham dos mesmos privilégios, ainda assim começamos a abraçar novos olhares sobre nossas experiências. 

 

Foto: Dan Guinski

Mas por que queremos ser alguém?

A primeira coisa que ganhei, antes mesmo de nascer, foi meu nome: Hellen. Significa Helena, que é a minha mãe. Contudo, um RG com uma foto 3×4 não me é suficiente. Quero mais. Quero saber quem é a Hellen. Bauman, esse sociólogo tão fofinho das redes sociais e liquidez, me dá uma luz:

Em nosso mundo de “individualização” em excesso, as identidades são bençãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como dizer quando um se transforma no outro. (Bauman, 2005)

O anseio por ter uma identidade vem do próprio desejo de segurança. Se sentir parte, compondo uma comunidade, traz a salvação para que sempre tenhamos alguém por ser alguém. É como quando todo mundo usava o mesmo all star nos anos 1990, e colecionávamos os lápis de cor da Faber Castel como o bem mais precioso da vida estudantil. Corresponder aos distintivos dos nossos grupos faz com que uma identificação – nem sempre natural – seja gerada. 

Ainda assim, se até o amor se tornou líquido nas nossas telas de cristal, como poderia ser diferente com nossas percepções de nós mesmos? 

Stuart Hall descreve a identidade como uma “celebração móvel”. Ela se forma e transforma continuamente de acordo com os sistemas culturais que nos rodeiam. 

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas.” ( Hall, 1999)

Impossível esperar que o tornava a minha mãe uma mulher me torne também uma. Não é mais a maternidade ou os vestidos que nos fazem parte deste grupo tão seleto. Todos os dias, ocupando novos espaços, redefinimos o feminino e aquilo que o constrói.

O que significa ser mulher pra você?


Créditos das Fotos e Gif de Capa

Fotógrafo: Dan Guinski
Produtora de Moda: Juliani Flyssak 
Beleza: Carol Skora
Assistência de moda: Melise Seabra
Figurino: Brechó Trinca Z
Locação: Chelsea Cafe 

Ser Mulher, uma busca por identidade

Sobre o autor
- O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.

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