Um Manual Definitivo do Coletor Menstrual

Por Amanda Talhari

Quem gosta de absorvente? Só a moça super sorridente da propaganda…

Marca a calcinha, tem cheiro forte, vaza, fica em contato com a pele. Qual a opção? Absorvente interno? Além de nunca ter me adaptado direito ao desconforto de colocar e tirar, depois que descobri que não se deve entrar na água com ele (porque o cordão absorve a água e pode levar contaminantes para dentro do canal) aboli das minhas compras. Então o que fazer? Sentar e chorar?

Há pouco mais de um ano, fiquei sabendo que existia um coletor menstrual não descartável, o tal “copinho”.

Achei a ideia absurda no começo (como se uma mini fralda ou rolha de sangue não fossem). Não me imaginava confortável usando um copo emborrachado dentro de mim, nem queria ter que lidar com o sangue coletado. Rejeitei. Mas, depois de ser exposta mais vezes à ideia, entender como funcionava e me despir dos meus preconceitos, decidi testar.

Aliás, não testar. Decidi comprar certa de que ia conseguir.

Não tinha dúvidas. Comprei a marca mais conhecida em uma promoção – com endosso de celebridade e tudo – aguardei ansiosamente o pacote, com o segredo da ecologia descolada e da liberdade nos 5 dias mais chatinhos do mês.

Minha certeza foi pelo ralo com o descarte do copo… Não deu certo, não me adaptei e a frustração foi enorme.

Minha saga estava só começando. Mais que não me adaptar ao produto, descobri que nada sabia sobre meu corpo e como ele funciona. Por isso, compartilho com vocês meu percurso e o que aprendi.

Começou errado: escolhendo sem pesquisar

Iniciante, noob, rookie, inexperiente. Fui orientada pelo site da empresa do coletor menstrual. A marca que comprei dividia o copinho em dois tamanhos. Usando os critérios: com/sem filhos e mais/menos de 30 anos de idade. Como não tenho filhos, nem tinha mais de 30 (ainda), comprei o segundo, que é o menor.

Para mim esse copinho era muito firme e muito grande, apertava minha uretra e eu sentia ele o tempo todo (além de vazar sempre). Descobri depois que diferentes marcas oferecem produtos distintos, com critérios distintos. Como fazer ou não esportes, ter o colo do útero alto ou baixo, ser ou não virgem, quantidade de fluxo menstrual e outros diversos fatores.

Afinal, qual a diferença entre esses produtos:

Diâmetro: o copinho pode ter de 31mm a 48mm (e sim, faz muita diferença esse 1,7 cm a mais de largura dentro do canal).

Comprimento: de 35mm a 57mm. Isso influencia na posição dele dentro de você (mais fundo ou não). Também na capacidade de ml que ele irá suportar (portanto quantas horas você pode usá-lo sem esvaziar).

♦ Firmeza/textura: soft, macio, firme, “sport”… Cada marca chama de um jeito, mas é importante notar que diferentes materiais têm diferentes firmezas e texturas. Existem copinhos de silicone, de borracha, de polímeros. Com a textura bem lisa e mais escorregadia (fácil de entrar, difícil de segurar com a mão), ou bem soft (mais fácil de pegar com a mão para tirar e colocar).

Puxador: há opções com cabo (que podem ser cortados), com aro ou anel, sem nada (esse me apavorava, mas fica tranquila que não tem como perder um copo de 4 cm dentro de você). Alguns têm relevos em volta do próprio copo, como anéis, para torná-lo mais fácil de pegar com os dedos e puxar para fora.

Existem diversos tipos de copinhos. Ilustração: Amanda Talhari, Estúdio Barbatana

 

Legal, mas como saber qual desses é o melhor para mim? Tem que conhecer o próprio corpo… Esse foi meu problema – e o de muitas com quem conversei

O buraco é mais embaixo…

Para saber se você precisa de um coletor menstrual mais firme ou mole, largo ou estreito, com ou sem puxador… Você precisa saber mais sobre a sua anatomia, sua sensibilidade, seu fluxo. Por exemplo:

Olá, velho amigo, canal vaginal

Primeiro, ele é curvo. Não sei se você já explorou essa área com os dedos, mas na hora de colocar um coletor menstrual você sente na pele que não é para empurrar para “trás” apenas. O movimento tem que ser para cima e para trás, porque afinal estamos manobrando esse copinho em uma curva.

Além do formato do canal, existe o tônus muscular.

Afinal, o canal vaginal é envolto em musculatura que pode ser mais ou menos forte, dependendo do estilo de vida, experiências e até tipo físico de cada mulher. Quem tem a musculatura forte precisa de um coletor menstrual firme. Já musculaturas menos exercitadas ou paredes vaginais mais sensíveis precisam de um copo macio e talvez até estreito – que não vá incomodar. Um coletor menstrual largo e comprido pode ter maior capacidade (ml), porém pode não se acomodar dentro de você.

E, não, gatas, a força do canal vaginal não é pela maior ou menor frequência sexual. Tem muito mais a ver com fazer exercícios para musculatura interna como fisioterapia, Kegl, Pompoarismo, ou se já teve filhos. Isso pode de fato modificar a musculatura… Um simples pênis não deixa ninguém mais larga pra sempre.

O canal vaginal é curvo!
Ilustração: Amanda Talhari, Estúdio Barbatana

Colo do útero, ou cérvix, prazer te conhecer

Esse para mim foi uma frustração. Sabia o que era, até tinha visto ele na câmera no médico – é uma coisinha rosa bonitinha que fica lá no fundo do canal. Certo? Errado. Ele não fica exatamente no fundo, fica acima (!?), cerca de 3 a 6 cm distante da abertura vaginal.

Descobri que esse botãozinho, que na verdade é a “porta” entre a vagina e o útero, pode ser alto ou baixo dependendo da anatomia de cada mulher. E mais: ele muda de posição e até de textura dependendo da época do mês.

Um colo baixo é quando essa abertura “desce” para mais perto da abertura vaginal, ou seja, seu canal fica mais curto (portanto menos espaço para o coletor). Ele costuma ficar baixo quando não estamos ovulando.

Um colo alto é quando ele está distante da abertura vaginal, deixando o canal vaginal mais longo (portanto mais espaço para o coletor e suas manobras). Ele costuma ficar alto quando estamos ovulando.

Pode ser macio como a parte de dentro da nossa bochecha, ou durinho como a ponta do nariz, dependendo também da ovulação. Uma confissão? Até hoje não achei o bendito. Mas pelo menos já saquei como que coloca o copo sem tampar ele todo errado… Veja a ilustração para acompanhar minha falta de informação:

O colo do útero pode ficar alto ou baixo dependendo da ovulação.
Ilustração: Amanda Talhari, Estúdio Barbatana

Se errar é humano e insistir é burrice, desistir é o que?

Lembrando que eu não sabia nada disso que acabei de explicar. Então, estava eu sentada com um papel com instruções vagas em uma mão, um coletor na outra, e lágrimas de desespero nos olhos. Totalmente perdida.

Lembremos que é um produto totalmente novo, diferente, que mamãe não usava então não nos explicou na menarca como funcionava. Para piorar tenho que inserir em uma parte do corpo que (como vimos) desconheço… Me senti lendo uma bula em chinês, quase desisti várias vezes.

Por isso, tento complementar essa bula vaga e pouco útil, com algumas orientações práticas de uso:

As famosas dobras


O manual de todas as marcas vem com uma série padrão de dobras para que você consiga introduzir o coletor no canal vaginal. Geralmente a “C”, a “U”, “Punch down”. Eu dobrei de todos os jeitos que vi no manual, o bendito copinho continuava sendo muito grande e desajeitado para inserir.

Nesse momento recorri ao Google (pai dos burros), e YouTube (paraíso dos tutoriais e reviews de produtos) e Facebook (lar dos grupos de manas que se ajudam). Descobri que quanto mais fácil de fazer a dobra, mais difícil de colocar em você fica… E a recíproca é verdadeira. Quanto mais difícil a dobradura menor e mais fácil ele fica de inserir.

O coletor é quase um origami, em que há uma miríade de dobras para testar, ver e se adaptar.

A que funcionou para mim é o último recurso de todas as manas que quase desistiram: a dobra meio diamante, com a dobradura sempre virada para baixo.

A dobradura meio diamante. Ilustração: Amanda Talhari, Estúdio Barbatana

O “jeitinho”


Uma coisa importante, os manuais sempre falam que ele vai abrir sozinho no corpo… Para mim isso não acontecia. Ele entrava dobrado e ficava dobrado. Lembrando que o copinho está estacionado numa curva recoberta de músculos, realmente fica difícil abrir. Por isso dou uma mãozinha, empurrando a aba dobrada com o dedo.

Depois, tem uns jeitinhos para você ver se pegou o famoso “vácuo”. Como fazer força como se quisesse expelir, ou dar uma puxada nele como se fosse tirar – além de ver se ele fica preso como uma ventosa ou se sai com facilidade, essa puxadinha dá uma ajeitada caso não esteja na posição certa. Uma dica que li por aí é de colocar e ir tomar banho para dar tempo de que o copinho se ajeite, abrindo sem sujar a roupa.

Posição do corpo


Assim como absorvente interno – e sexo – cada uma se dá melhor com uma posição. Faz muita diferença, então teste todas que puder. Para mim, sentada no vaso é a mais fácil (sem forçar as pernas, os músculos não se contraem). Lembre-se, mais uma vez, que a vagina tem uma curva. Então, a posição do seu corpo pode transformar o canal em uma “esquina” super fechada ou em um canal mais fácil de “manobrar”.

Condições ideais na região


Muitas mulheres relataram que assim que chegou o copinho tentaram testar e não conseguiram… Por isso aviso que “no seco” é muito difícil de colocar. A menstruação deixa o canal mais macio, mais escorregadio, além de mudar a posição do colo do útero. Muitas usam óleo de coco ou lubrificante a base de água, ainda assim a posição de tudo está diferente. Portanto, não serve muito como aprendizado fazer os testes sem estar menstruada.

Higiene


No manual está escrito para ferver… E só. A higiene desta região é chave, nós sabemos – afinal uma infecção urinária é fácil de começar e uma chatice para curar. Contudo, existem alguns detalhes importantes com relação ao coletor.

Por exemplo, deixá-lo úmido sempre ajuda na proliferação de fungos e bactérias que desregulam a nossa flora vaginal e podem causar coceira, ou episódios de candidíase em quem é mais suscetível. Por isso é importante ferver e deixar secar naturalmente, sem esfregar, em um ambiente protegido de contaminantes.  

Vazamentos


Eram meu maior problema. Até entender o que pode causar esse vazamento. Em geral, é porque está cheio ou não pegou o vácuo adequado. Isso pode acontecer porque o tamanho não está adequado (grande ou pequeno), a firmeza não está adequada (muito duro ou mole), a posição não está correta (a dobra não abriu, ou você inseriu muito fundo e acabou passando o colo do útero).

Nestes casos teste novas dobras, diferentes alturas/profundidades, e veja se ainda está sentindo o coletor dentro do corpo em algum movimento ou posição. Você não tem que sentir nada, se sentir está usando o coletor errado. Agora, se for um vazamento pequeno, por pouco tempo, pode ser apenas resto de sangue que ficou no canal –  não esquenta, use um protetor no começo (existem os laváveis, se não quiser produzir lixo).

Local para esvaziar


E se eu estiver no trabalho? Na rua? Ai, minha deusa… Pois bem, como meu fluxo é médio, e meu coletor não é o shorty/P/Mini, ele aguenta 12 horas. Logo, me programo para esvaziar e lavar quando estou em casa.

Entretanto, se por algum acaso estou na rua, na casa de alguém, no trabalho ou aula, e não tenho acesso a uma-pia-e-fogão-com-sua-caneca-esmaltada-pra-ferver, a dica é: lava muito bem as mãos (sem encostar em mais nada), retira e esvazia o copo no vaso sanitário mesmo (também sem encostar em nada). Depois coloca de volta. Nojinho? Lembre que sangue não é sujeira! Além de não ter encostado em nada contaminante. Leve um lencinho umedecido na bolsa pra limpar as mãos e qualquer outra coisa que sujar.

A cara da vitória!
Ilustração: Amanda Talhari, Estúdio Barbatana

Suei no bigode, mas – juro – o prêmio vale a pena

Agora, amiga, passadas estas dificuldades, anjos cantam e tocam harpa. Sabe a mocinha da propaganda de absorvente andando livre e solta, sorrindo sem motivo? Então. E, mais do que isso: você vai poder tomar banho, sair do box, se secar perfeitamente e NÃO manchar nenhuma toalha nem andar com a perninha fechada e passos de gueixa. Visualiza a liberdade? Sim. É maravilhoso.

 

Autora e Ilustradora

Amanda Talhari

Amanda Talhari

Sou autora e ilustradora no Estúdio Barbatana. Originalmente formada em Comunicação Social – Propaganda & Marketing, mas a vida nômade só aumentou a curiosidade por gente e a paixão por aprender, por isso estou me especializando em Antropologia Cultural. Fiz (e faço) “de um tudo”: planejamento, branding, pesquisa, aulas, ilustração, redação, e otras cositas más – no fim tudo em volta do mesmo tema –  gente, gente, gente! Sou colecionadora de memórias, de gargalhada alta, doente por cachorros, amante da cozinha, do garfo, do copo e eterna viajante.

 

Um Manual Definitivo do Coletor Menstrual

Sobre o autor
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