Viajante Sola: é preciso olhar de longe pra entender o que está perto

Perspectiva é uma daquelas coisas que só se ganha com espaço. Pode ser espaço de tempo, dos outros, de trabalho. Por vezes, e isso não é tão raro quanto possa parecer, esse espaço precisa ser geográfico. Tem mudanças que não cabem onde se vive. Precisam de outros ares para maturar.

Dê dois passos para trás. Abra bem os olhos. Respire fundo.

A Partida

Foram nas distâncias que Juliana encontrou proximidade. A primeira vez a ter como única companhia as próprias malas foi quando se mudou a Espanha para estudar. O que era pra ser um mês virou cinco anos de trocas de endereços. “Queria que fosse sozinha porque queria aprender a ser uma mulher independente”, me fala.

Onde sempre foi sua casa, as raízes fortes não apenas a sustentavam como também traçavam quem ela seria. A família e amigos tinham uma forte ligação emocional, por isso, o momento de apartar seria significativo, ela já sabia.

“Eu precisava me soltar no mundo sozinha pra me transformar, esse seria meu desafio”.

Viajante Sola: Juliana Reis em suas primeiras jornadas

Iniciação

A família de Ju é daquelas super protetoras e demorou a ter entre suas figuras mulheres fortes. Quando pequena, ela perguntou ao pai o que deveria fazer para pagar as contas da casa. Uma preocupação prematura para quando finalmente alcançasse a vida adulta. Prenúncios de uma mulher forte em crescimento?

“Ele me disse: quando for adulta você terá um marido e vocês dividirão as contas. Por muito tempo fiquei cabreira com essa resposta, pensando: e se eu não achar um marido?”, suspira. A busca começa aí. Na vontade de saber voar sola, por si mesma, sem depender de ninguém.

Eu só voltei quando percebi que era capaz de ser uma mulher de verdade, não a filha do papai ou a irmã caçula.
.Juliana Reis

As viagens se acumularam nos passaportes, acompanhando as diversas fases que se tem uma vida. Anos depois, outra jornada trouxe novas aventuras. Em um setembro passado, a grande descoberta foi a do agora. “Eu sempre vivi no passado ou no futuro. Sempre lamentando o passado, com medo do futuro…”

O Retorno

Juliana foi a Lituânia, ganhando pouso na casa de uma amiga que havia conhecido em sua primeira jornada. Foram seis semanas submersa em uma cultura discreta, que não tem como hábito olhar – ou julgar – quem está ao redor. “Eles apenas deixam que seja quem é”.

Lá, não se sentia notada. Fosse pelos costumes locais ou pela própria redoma que havia colocado sobre si. Juliana criou seu espaço. Andava de bicicleta por muitos quilômetros todos os dias, olhava as paisagens, explorava outros cantos, sem responder nenhuma pergunta alheia. “Nesse momento eu comecei a entrar pra dentro de mim, descobrir quem eu realmente sou”.

A maior transformação de viajar sozinha foi a possibilidade de descobrir quem eu sou verdadeiramente.
.Juliana Reis

Viajante Sola

“Then the heart of Eowyn changed, or else at last she understood it. And suddenly her winter passed, and the sun shone on her.” – A frase sobre Eowyn, personagem da saga de O Senhor dos Anéis, foi um dos pensamentos que se passaram nesse momento de conexão.

Foi sozinha que encontrou o seu lugar, entre uma floresta de pinos e o mar. Se sentou ali para mirar o Sol, quando percebeu, tinham se passado quatro horas. Quatro horas sentada sozinha, na sua presença individual. Se misturando com o mundo. “Esse dia foi de grande transformação, que percebi que havia tornado a mulher que queria me tornar”.

Quantas vezes por dia você viaja para dentro de si mesma?

Como começar sua Jornada de Heroína

Para Juliana, viajar sola foi perceber que ela poderia fazer grandes coisas sozinha. Nessa trajetória, que continua a cada novo destino, ela encarou provações, cruzou portais e enfrentou minotauros – mesmo que eles fossem apenas medos, sem nenhum chifre. Ao retornar do seu ressurgimento, Ju me deixou conselhos dignos de Quíron. Acompanhe o restante da série Viajante Sola.

Acho fundamental estar e viajar sozinha. E estar em um lugar em que você não gere curiosidade, em que seja invisível, isso é uma delícia! Te permite transformação.

.  A maioria das pessoas desencoraja essas viagens sozinhas, principalmente se você for mulher. Eu sou mulher, sozinha e baixinha. Eu sabia que ia passar perrengue, e passei. Sempre vai existir um certo medo.

.  Consulte outras mulheres que também viajaram. Faça uma rede de contatos. Converse com mulheres que já foram para lá e sobre o que sentiram nessas situações.

Existem códigos nos lugares que você não precisa quebrar. Como no Sul da Turquia, na Síria ou no Líbano. Eu morei no Líbano. Nesses lugares eu procurava não fugir do código. Precisa colocar um lenço na cabeça? Coloca.

Os homens vão mexer com você, não dê bola. Em alguns locais é diferente uma mulher estar sozinha.

“Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.”
.Clarice Lispector

Viajante Sola: é preciso olhar de longe pra entender o que está perto

Sobre o autor
- O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.

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